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Racismo ambiental: foto mostra as mãos de uma criança negra abraçando uma árvore

Eventos clim√°ticos extremos impactam, especialmente, popula√ß√Ķes negra, quilombola, pesqueira, perif√©rica, ind√≠gena, ribeirinha e, particularmente, suas crian√ßas. O racismo ambiental traz √† tona a urg√™ncia de buscar solu√ß√Ķes para a emerg√™ncia clim√°tica sob uma perspectiva antirracista

Voc√™ j√° notou quais costumam ser as popula√ß√Ķes mais afetadas pelos efeitos da crise clim√°tica? Em diversos lugares do mundo, as popula√ß√Ķes √©tnico-raciais em situa√ß√£o de vulnerabilidade geralmente est√£o entre as principais v√≠timas das enchentes nas grandes cidades, dos deslizamentos de terras, das secas prolongadas e de outros eventos extremos provocados pelo aquecimento do planeta. Esses impactos, que amea√ßam adultos e crian√ßas de formas distintas, est√£o no centro do que chamamos racismo ambiental.¬†¬†

O termo foi criado nos anos 1980, pelo ativista afro-americano e defensor de direitos civis Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr. Ele desenvolveu o conceito em um momento de manifesta√ß√Ķes do movimento negro contra injusti√ßas ambientais nos Estados Unidos, fazendo refer√™ncia √† forma desigual com que as comunidades mais vulner√°veis ficam expostas aos fen√īmenos ambientais, bem como est√£o distanciadas das tomadas de decis√£o. Desde ent√£o, enfrentar as desigualdades socioambientais virou parte importante da luta antirracista.

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Em 2021, o tema ganhou ainda mais proje√ß√£o ao ser levado por ativistas aos debates da COP 26, em Glasgow, na Esc√≥cia. L√°, representantes dos movimentos negro e ind√≠gena do Brasil denunciaram o problema e cobraram a√ß√Ķes efetivas dos l√≠deres mundiais, defendendo que n√£o √© poss√≠vel separar a luta ambiental do reconhecimento e respeito aos povos origin√°rios e aos mais vulner√°veis, e que a justi√ßa clim√°tica precisa seguir de m√£os dadas com a justi√ßa racial.¬†

A quest√£o tamb√©m se expressa nas desigualdades constatadas entre o norte e o sul global, uma consequ√™ncia dos processos de colonialismo, neoliberalismo e globaliza√ß√£o. Ainda hoje, a chegada de grandes empreendimentos aos pa√≠ses do sul global costuma gerar expuls√£o de popula√ß√Ķes origin√°rias de seus territ√≥rios, destruindo suas culturas e impactando o meio ambiente.¬†

O racismo ambiental pode ser observado das cidades aos campos. Atravessando essa hist√≥ria de desigualdades, est√£o as favelas brasileiras, por exemplo. E, embora 84% da popula√ß√£o brasileira viva em √°reas urbanas, a maioria dos conflitos no pa√≠s relacionados √† justi√ßa clim√°tica ‚ÄĒ mais de 60% ‚ÄĒ atinge justamente popula√ß√Ķes que vivem nos campos, nas florestas e nas zonas costeiras, revela um estudo realizado pela Fiocruz. Nessas √°reas, as disputas por recursos naturais est√£o ligadas √† inser√ß√£o do Brasil no com√©rcio internacional, em geral com pr√°ticas ambientalmente agressivas e resultando em impactos diretos nas popula√ß√Ķes de baixa renda e minorias √©tnicas.

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A quest√£o, que atinge especialmente crian√ßas negras, ind√≠genas e quilombolas, ¬†levou mais de 220 entidades da sociedade civil a assinarem um manifesto contra o racismo ambiental na COP 26. Na ocasi√£o, a Coaliz√£o Negra por Direitos lembrou que a crise clim√°tica √© tamb√©m humanit√°ria e tem impacto direto na vida das popula√ß√Ķes negras, quilombolas e ind√≠genas.

‚ÄúNo Brasil, a maioria populacional √© negra e representa, hoje, 56% da popula√ß√£o. Negar o racismo ambiental √© negar que o Estado brasileiro √© racista. √Č negar a realidade da vida nas periferias das grandes cidades, o aumento da fome. √Č negar a viola√ß√£o dos direitos constitucionais de comunidades, territ√≥rios quilombolas e terras ind√≠genas. √Č negar a hist√≥ria de urbaniza√ß√£o do pa√≠s e suas profundas desigualdades territoriais‚ÄĚ, afirmou a Coaliz√£o no documento.

Mesmo assim, o Brasil n√£o reconheceu o conceito de racismo ambiental na ONU. Em uma sess√£o do Conselho de Direitos Humanos realizada em 2021, representantes do governo brasileiro questionaram o uso do termo, argumentando que essa n√£o era uma terminologia “internacionalmente reconhecida”. Para o atual governo, a rela√ß√£o entre os problemas ambientais e as quest√Ķes sociais, como o racismo, devem ter um enfoque “equilibrado e integrado √† dimens√£o social, econ√īmica e ambiental‚ÄĚ.

O resultado disso √© a falta de informa√ß√Ķes sobre o racismo ambiental no pa√≠s, enquanto poss√≠veis solu√ß√Ķes costumam ser discutidas apenas superficialmente. √Č importante que passemos a olhar nosso passado, nosso presente e a chamar as coisas pelo nome que elas t√™m.

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Os eventos clim√°ticos extremos impactam a todos, √© verdade. Mas n√£o h√° como negar o recorte persistente e estrutural de quem costuma ser mais afetado. E, nessa teia de vulnerabilidades, as popula√ß√Ķes negra, quilombola, pesqueira, perif√©rica, ind√≠gena e ribeirinha, em especial as suas crian√ßas,¬† est√£o pagando mais caro essa conta. √Č preciso levar as pessoas que sofrem injusti√ßas clim√°ticas ao centro dos processos decis√≥rios. S√≥ assim ser√° poss√≠vel garantir, no presente, um planeta habit√°vel para as crian√ßas.

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