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Imagem com folhas, flores e terra e o texto: a natureza e o imaginário do brincar, Gandhy Piorski

‘Brinquedos do Chão’, de Gandhy Piorski, é o primeiro livro de uma série que irá discutir o brincar e os 4 elementos da natureza

Em 2016, o Instituto Alana lançou, em parceria com a editora Peirópolis, ‘Brinquedos do Chão: a natureza, o imaginário e o brincar’. Este é o primeiro livro de uma série de quatro, do educador e artista plástico Gandhy Piorski.

Gandhy estuda o brincar e o brinquedo há mais de 20 anos. Por suas andanças Brasil afora, na busca por conhecer a criança brasileira, se deparou com a intimidade e o manejo que elas têm com os elementos da natureza. Assim, deu início a um estudo profundo sobre o brincar e os 4 elementos: terra, fogo, ar e água.

Nesse livro, o pesquisador adentra o universo do brincar com o elemento terra, e busca compreender como ele dialoga com o reino imaginário da criança.

Confira abaixo o bate-papo que fizemos com ele.

Instituto Alana – O professor Marcos Ferreira, que prefaciou o seu livro, diz que você é um pesquisador alimentado pela ‘curiosidade crianceira’. O que as crianças despertam em você?

Gandhy Piorski – A principio, não existia um interesse direto pela infância, mas pelo universo do artista brincante. As artes e as brincadeiras sempre chamaram a minha atenção. Além disso, sempre gostei muito de teatro de bonecos. Em meados dos anos 90, pude conhecer o mestre Zezito, e estudar com ele. Ele que me transmitiu um encantamento pela alma do brinquedo tradicional, feito por artesãos. Logo depois, montei uma oficina e comecei a construir brinquedos, propor projetos para arquitetar espaços de brincar, realizar oficinas com crianças e jovens da periferia de Fortaleza. E, finalmente, iniciei uma pesquisa própria. Fiquei até 1999 trabalhando quase que exclusivamente com construção de brinquedos.

IA – E quando a criança tornou-se o foco da sua pesquisa?

GP – Em 2003, ganhei a Bolsa Virtuose, cedida pelo Ministério da Cultura, para realizar um estudo no Museu do Brinquedo de Sintra, em Portugal. Conheci diversos pesquisadores, entre eles o professor João Amado, da Universidade de Coimbra, que pesquisa os brinquedos construídos por crianças da Península Ibérica. Um dia, durante uma conversa, ele me levou até as ruínas de Conímbriga, cheia de mosaicos, de brinquedos e brincadeiras das crianças romanas, e me deu uma aula sobre esses brinquedos. Em seguida, lançou a pergunta: você conhece as crianças do Brasil? Já pesquisou os brinquedos que elas constroem? Isso mexeu comigo e me conduziu a olhar para a criança.

IA – O significado do brinquedo mudou quando você começou a olhar para a criança?

GP – Mudou completamente. Quando entrei de cabeça no universo da infância o brinquedo estético e produzido perdeu a expressão para mim. Eu enxerguei uma camada anterior – que é a imaginação da criança – e que falava com muito mais riqueza sobre o universo da infância. Afinal, é na imaginação que residem todos os elementos do brincar. O brinquedo foi perdendo sua concretude.

IA – Depois dessa nova ótica para o brinquedo, como você guiou suas pesquisas?

GP – Eu voltei de Portugal e, no mês seguinte, já estava no Pará, em áreas ribeirinhas de Belém, olhando as crianças. Além disso, fiz um trabalho para a Instituição Dragão do Mar. Eles me convidaram para montar uma grande exposição de brinquedos construídos por crianças cearenses. Fiz uma pesquisa de dois anos, em 25 regiões do Ceará. Foi dessa experiência – entre 2005 e 2007 – que, finalmente, nasceu o livro Brinquedos do Chão. Ou seja, a escrita foi no campo – eu parava a noite e escrevia. Então, comecei a entrar de cabeça nos elementos da natureza, relacionando-os com o brincar.

IA – O que a criança busca quando brinca com os elementos da natureza?

GP – Sobretudo, busca um anseio humano muito antigo, de se entranhar no mundo e conhecê-lo nas suas múltiplas dimensões. Nesse sentido, a força imaginária conduz a criança a conhecer as experiências mais estruturantes da vida. E essas experiências estão na natureza.

IA – E o que ela busca ao brincar com a terra em específico?

GP – A brincadeira da terra é uma brincadeira de estrutura. A criança busca a inteireza, a concretude da vida, quer compreender os materiais no todo e manifesta isso nos seus fazeres. No livro eu falo sobre as investigações do oculto: abrir os animais para ver o que tem dentro, cavar a terra, a brincadeira de esconde-esconde. Esses momentos revelam o fascínio do encontro. Em outras palavras, a criança tira os véus da vida para poder criar intimidade e se aninhar com o mundo, bem como conhecer os fundamentos de todas as coisas e a terra permite essa descoberta.

IA – Você afirma no livro que a imaginação é a verdade da criança. Poderia explicar?

GP – A imaginação é a faculdade com a qual a criança dialoga com a vida. É o oposto da consciência racional, que analisa e cria conceitos. A imaginação é fundada pelo simbólico, pelo encanto, e não por uma linguagem moralista. O olhar simbólico nos deixa permear pelas matérias do mundo. Já o olhar analítico nos afasta das experiências. Quem vive por mais tempo o alimento imaginário constrói uma organização sensorial mais aprofundada. Por isso, precisamos educar as crianças, desde cedo, nessa expressão do imaginário.

IA – Existe um imaginário que atravessa as diferentes culturas infantis?

GP – Sim. O contato com a elementaridade do mundo dá uma universalidade para o brincar. O barquinho, por exemplo, é universal na cultura das brincadeiras. O menino que nasce no sertão vai acessar o elemento água tanto quanto o menino que nasce na beira da praia. Mas as narrativas serão diferentes, pois a cultura vai dar o contorno para as brincadeiras. O menino do mar constrói um barquinho de forma mais refinada do que o do sertão. No entanto, os dois contêm em si os mesmos elementos imaginários da água. Isso é um arcaísmo genético. A água acorda informações genéticas comuns aos dois meninos, porque essas informações estão no fundamento do humano.

IA – A exposição que acompanha o lançamento do livro traz brinquedos que crianças construíram com sucatas da cidade. Como relacionar com os brinquedos do chão, feitos com elementos da natureza?

GP – Ela vem para dar um contraponto. Não precisamos ficar restritos ao sonho ideal do brincar na natureza. O mais importante é conhecer a imaginação da criança, como ela se estrutura. A partir disso, encontrar no mundo espelhos que alimentem essa imaginação. Nessa exposição, estão expostos brinquedos feitos com materiais da indústria. Mas não qualquer material, são sucatas inteligentes, como um freio de bicicleta – que abre ramos na imaginação e evita o linear. É preciso criar encantamento nas matérias, porque a imaginação é do reino do encanto, ele que acorda o interesse vivo em criar.

IA – Qual o convite que o livro faz ao leitor?

GP – O livro trata sobre a base fundamental de diálogos da criança com o mundo. Ele inaugura uma reflexão sobre o comportamento imaginador da criança. É para todos que se interessam pela criança. Pessoas da área da cultura que produzem obras para crianças, artistas, arquitetos que têm pensado ambientes para a infância, urbanistas, bem como educadores que estão nas escolas.

‘Gestos do Chão’, de Gandhy Piorski

Durante o lançamento do livro foi exibido o filme Gestos do Chão. O curta-metragem  discute a relação do elemento terra com o corpo e a imaginação da criança. A partir de depoimentos de um permaculturista, um arquiteto e um coreógrafo, ele aborda como a paisagem, a matéria e o gesto do brincar fundamentam na criança noções matriciais de pertencimento e identidade. Com direção de Gandhy Piorski e Renata Ursaia, o filme está disponível na plataforma VIDEOCAMP.

Confira as fotos do lançamento em São Paulo, no dia 05 de novembro de 2016:

Apresentação do grupo musical UIRAPURU (Foto: Rodolfo Goud)
Sessão de autógrafos do livro 'Brinquedos do Chão' com o autor  Gandhy Piorski (Foto: Rodolfo Goud)
Exposição de brinquedos (Foto: Rodolfo Goud)
Exposição de brinquedos (Foto: Rodolfo Goud)
Exposição de brinquedos (Foto: Rodolfo Goud)
Exposição de brinquedos (Foto: Rodolfo Goud)

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