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Foto mostra sombra de crianças sendo refletidas em guarda-chuva laranja

Na abordagem da educa√ß√£o integral, a crian√ßa √© vista em suas m√ļltiplas dimens√Ķes; para serem transformadoras, escolas precisam de novas linguagens, compet√™ncias e habilidades

Marcado por problemas sociais, ambientais, econ√īmicos e pol√≠ticos, o mundo atual exige compet√™ncias e habilidades diversas, que v√£o muito al√©m do modelo tradicional de ensino, da matem√°tica, do portugu√™s e do vestibular. Diante disso, a abordagem da educa√ß√£o integral pode ser uma chave para uma mudan√ßa de paradigma nas escolas.¬†

Com as altera√ß√Ķes provocadas pelos processos de globaliza√ß√£o e de revolu√ß√£o tecnol√≥gica, principalmente ap√≥s meados do s√©culo XX, a escola teve seu papel questionado. O modelo tradicional de ensino, com foco na disciplina e no conte√ļdo acad√™mico, onde o professor √© visto como √ļnico detentor do saber e os alunos como ‚Äúfolhas em branco‚ÄĚ, n√£o encontra mais espa√ßo no cen√°rio atual.¬†

Neste contexto, cabe √† escola repensar seu papel e construir novos significados √† sua atua√ß√£o. √Č necess√°rio revisitar as concep√ß√Ķes de educa√ß√£o e compreende-la sob uma perspectiva mais ampla, considerando sua aproxima√ß√£o com outros campos, institui√ß√Ķes e atores.

Para mergulhar fundo nestas discuss√Ķes, conversamos com Ana Claudia Arruda Leite,¬† pedagoga e coordenadora de Educa√ß√£o e Cultura da Inf√Ęncia do Instituto Alana.

Para Ana Claudia, a escola deve se fortalecer como um espa√ßo de conviv√™ncia, de leitura cr√≠tica e criativa do mundo, capaz de possibilitar tanto a apropria√ß√£o do patrim√īnio simb√≥lico e material da humanidade, como a constru√ß√£o de v√≠nculos e de significados para a vida, no √Ęmbito individual e coletivo.

Confira o bate-papo com Ana Claudia Arruda Leite. 

Site ‚Äď Hoje, muitos defendem a escola em tempo integral. Ela seria um modelo interessante e que atenderia as novas demandas do s√©culo XXI?

Ana Claudia Leite ‚Äď Antes de tudo, √© fundamental distinguir educa√ß√£o integral de escola em tempo integral. A educa√ß√£o integral √© uma concep√ß√£o de educa√ß√£o e n√£o um modelo. Ela foca no desenvolvimento pleno do ser humano, ou seja, nas suas m√ļltiplas dimens√Ķes (intelectual, corporal, √©tico, est√©tico e pol√≠tico). Por isso ‚Äėintegral‚Äô, do latim integrńĀlis (inteiro, total). Al√©m disso, nessa abordagem, a escola √© vista como um dos espa√ßos educativos e n√£o o √ļnico, e √© pensada a partir do di√°logo com seu territ√≥rio, onde os diferentes sujeitos, espa√ßos e tempos s√£o reconhecidos no processo de ensino-aprendizagem.

A escola em tempo integral tem rela√ß√£o com esta discuss√£o, no que tange √† expans√£o do tempo e at√© de possibilidades formativas, mas dependendo de como ela for proposta pode n√£o significar uma educa√ß√£o integral no sentido pleno, visto que a institucionaliza√ß√£o traz consequ√™ncias complexas que podem impactar negativamente a educa√ß√£o e a sa√ļde, ps√≠quica e f√≠sica, dos beb√™s, crian√ßas, adolescentes, jovens e professores. Vale lembrar que, segundo a Organiza√ß√£o Internacional do Trabalho (OIT), a profiss√£o docente √© hoje considerada como uma das mais estressantes, al√©m de ser a segunda do mundo a portar doen√ßas de car√°ter ocupacional.

Precisamos olhar para essas condi√ß√Ķes atuais da escola e buscar caminhos efetivos e vi√°veis de transformar a escola num real ambiente educativo, saud√°vel, inclusivo e inspirador para todos. Isto passa por repensar muitas dimens√Ķes e n√£o apenas a extens√£o do tempo que a crian√ßa ficar√° dentro da escola. √Č preciso olhar o curr√≠culo, a arquitetura, a forma√ß√£o e condi√ß√Ķes de trabalho dos professores, a valoriza√ß√£o da crian√ßa como sujeito, a inclus√£o, bem como a integra√ß√£o entre educa√ß√£o, arte, cultura, esporte, sa√ļde.

Site ‚Äď Sob o olhar da educa√ß√£o integral, educa-se ent√£o em diversos lugares, diversos tempos e ao longo de toda a vida. A escola acolhe essa vis√£o de educa√ß√£o?

AC ‚Äď As escolas realizam pr√°ticas diversas de acordo com suas equipes e o modo como trabalham, mas a educa√ß√£o integral parte de um pressuposto que est√° na Constitui√ß√£o Federal, no Estatuto da Crian√ßa e do Adolescente (ECA) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educa√ß√£o Nacional (LDB), de que a educa√ß√£o no Brasil √© um direito de todos e uma responsabilidade da fam√≠lia, do Estado e da sociedade no geral; n√£o restrita, portanto, aos muros da escola. Assim, a educa√ß√£o que se faz dentro da escola deve olhar para o desenvolvimento integral da crian√ßa, considerando aspectos simb√≥licos e materiais, que juntos comp√Ķe o ambiente educativo e a subjetividade de cada ser humano.

O diálogo com a diversidade está, inevitavelmente, implícito à prática educativa.

Educação integral valoriza a diversidade

Do ponto de vista te√≥rico e legislativo, j√° temos respaldo para pensar a educa√ß√£o nessa perspectiva, como tamb√©m para pensar a escola na rela√ß√£o com seu entorno. O sujeito se faz como tal na sua rela√ß√£o com o outro, portanto, o di√°logo com a diversidade est√°, inevitavelmente, impl√≠cito √† pr√°tica educativa. A educa√ß√£o integral traz luz para isso e enxerga os diferentes contextos em que os alunos est√£o inseridos como pot√™ncias para a aprendizagem. Iniciativas como o Centro de Refer√™ncias de Educa√ß√£o Integral, do qual o Alana participa junto com outras organiza√ß√Ķes sociais, tem um papel fundamental nesta discuss√£o.

Site ‚Äď O que estamos fazendo com as crian√ßas dentro das escolas?

AC ‚Äď Vivemos um momento paradoxal na educa√ß√£o brasileira. Presenciamos uma melhoria na garantia de acesso √† escola (hoje temos praticamente universalizado o acesso ao ensino fundamental e a educa√ß√£o infantil come√ßa a entrar nesse processo). Contudo, o desafio da qualidade e da transforma√ß√£o ainda se faz presente. Algumas escolas j√° est√£o buscando alternativas a esse desafio e repensando seus projetos pol√≠tico-pedag√≥gicos, a fim de colocar em pauta discuss√Ķes importantes, como a reformula√ß√£o do curr√≠culo e do sistema de avalia√ß√£o, al√©m de trazer √† luz temas como inclus√£o e diversidade.

Presenciamos uma melhoria na garantia de acesso à escola, mas o desafio da qualidade ainda se faz presente. 

Neste movimento de repensar o papel da escola, estamos corealizando com a Ashoka o Escolas Transformadoras, um movimento global que busca conectar escolas que estão criando novos paradigmas na educação, rumo a uma aprendizagem verdadeiramente transformadora. Temos descoberto muitas escolas incríveis no Brasil e no mundo, que possibilitam a formação de sujeitos criativos, empáticos, críticos e engajados. Acreditamos que as experiências destas escolas precisam ser reconhecidas, sistematizadas e divulgadas, pois dão importantes pistas para avançarmos nesta discussão sobre qual escola queremos no século XXI.

Site ‚Äď O que seria ‚Äď dentro do contexto brasileiro ‚Äď uma educa√ß√£o transformadora?

AC ‚Äď Dentro do contexto brasileiro existe algo muito importante a ser feito: olhar para a pr√≥pria hist√≥ria. Olhamos muito pra fora e nos esquecemos de identificar o que aconteceu e o que acontece de inovador em termos de educa√ß√£o no Brasil. Temos experi√™ncias incr√≠veis por aqui. √Č preciso recuperar os autores e as experi√™ncias pedag√≥gicas significativas e comunicar estas boas refer√™ncias. O desafio √© como sistematizar e contar esta hist√≥ria de uma forma consistente, inspiradora e de f√°cil acesso para que consigamos construir novas narrativas, mudando a mentalidade e expectativa do que seja uma boa escola. E isso n√£o √© um assunto exclusivo de pedagogos e profissionais da educa√ß√£o, ele √© de todos na medida em que a educa√ß√£o √© um direito e um dever da fam√≠lia, do Estado , da escola e da sociedade.

Mudança de mentalidade

A mudan√ßa de mentalidade √© fundamental, porque, apesar de existirem exemplos inspiradores, de vanguarda, o que se tornou universal foi um modelo de educa√ß√£o enraizado ao conceito de escola do s√©culo XIX. Assim, a expectativa que a fam√≠lia, a m√≠dia e sociedade t√™m √© de uma escola ‚Äúforte,‚ÄĚ ‚Äús√©ria‚ÄĚ, que prepara para o vestibular. Ou seja, nada mais do que a escola tradicional. Hoje, espera-se que a escola no Brasil garanta o m√≠nimo: ensino da matem√°tica e alfabetiza√ß√£o, como se isso fosse suficiente. √Č preciso mudar essa cultura e estabelecer uma expectativa de aprendizagem maior, que envolva outras linguagens expressivas, compet√™ncias e habilidades.

Atravessar as barreiras simbólicas da escola seria uma grande transformação, mas também um enorme desafio.

Do ponto de vista legal, existe a possibilidade de a escola construir um projeto pedag√≥gico aut√īnomo e focado na educa√ß√£o integral. Em contrapartida, as pessoas que est√£o nas escolas e fora dela n√£o sabem disso e esperam da escola a continuidade do modelo tradicional, mesmo que j√° seja um consenso de que se trata de um modelo falido, que n√£o serve nem mais para a reprodu√ß√£o do sistema, que dir√° para uma transforma√ß√£o social.

Site ‚Äď Quais s√£o os maiores desafios do campo da educa√ß√£o?

AC ‚Äď H√° muitos desafios no campo da educa√ß√£o, que abarcam desde quest√Ķes relacionadas ao paradoxo quantidade/qualidade, at√© a forma de contrata√ß√£o de professores e arquitetura da escola. Precisamos reconhecer o avan√ßo nas pol√≠ticas p√ļblicas para universalizar o acesso √† educa√ß√£o. Contudo, o desafio √© fazer isso sem perder a qualidade e sem institucionalizar o processo educativo. A escola n√£o √© pr√©dio, mas um ambiente de aprendizagem, que possibilita a conviv√™ncia, a constru√ß√£o de v√≠nculo, de significados e de sentidos. A escola deve ser um espa√ßo autoral, e tudo o que √© autoral exige um tempo maior de entrega e envolvimento. N√£o apenas para o aluno, mas tamb√©m para o professor.¬†

Como construir um projeto político-pedagógico sem conhecer o entorno, as diferentes culturas que estão dentro da escola ou mesmo os próprios colegas de profissão?

Construindo uma comunidade de aprendizagem

Hoje, é comum o professor assumir mais de uma jornada de trabalho, o que interfere na construção desse espaço autoral, individual e grupal. Ao dar aulas em diferentes escolas o professor não se sente pertencente a nenhuma, e isso é um desafio para a qualidade da educação, pois impacta na possibilidade real de se construir projetos pedagógicos coletivos. A qualidade também está ligada a possibilidade de se ter uma equipe forte, que elabore um trabalho consistente, coeso e continuo, capaz de estabelecer vínculos com as crianças, suas famílias e com a comunidade.

Agora, imagine uma escola que atende até 3 mil crianças, com mais de 200 professores e muitos sem dedicação exclusiva, como ser um espaço autoral e de convivência, sem uma equipe forte? Como ser uma comunidade de aprendizagem se não temos tempo e espaço adequado para nos reconhecermos e nos conhecermos como coletivo?

Acredito que precisamos sim transpor os muros da escola no que tange à espaço e tempo, concretos e simbólicos, mas tão importante quanto isso é fortalecer a escola como uma comunidade de aprendizagem, construída por sujeitos, pois ela é, antes de tudo, espaço de relação humana. Sem afeto, vinculo e socialização, a educação se desumaniza.

Escola é espaço de relação humana. Sem afeto, vinculo e socialização, a educação se desumaniza.

Foto: Via Flickr SanShoot

Comments ( 1 )

  • Monaliza says:

    Minha filha tem quase 3 anos e tem Sindrome de Down. Estuda numa escola particular em Angra dos Reis chamada Jean Piaget. Eles tem um projeto maravilhoso desde o ano passado. O Educacao Integral. As criancas que precisam ficar alem da sala de aula ficam numa casa integrada a Escola onde elas almocam, tomam banho, fazem os deveres, brincam, tem aula de teatro, assistem TV juntas. Criancas de 2 a 11/12 anos, carinhosamente distribuidas em grupos por idade ficam sob a responsabilidade de 2 tias, cada grupo. Elas interagem em algumas atividades em comum ou ppr grupo de idade. Parece casa de parente. Um show.

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