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Foto mostra duas crianças, uma preta e outra branca, lendo um livro na escola

A educa√ß√£o antirracista e o ensino da hist√≥ria e da cultura afro-brasileira e ind√≠gena nas escolas √© essencial para, dentre outras coisas, evidenciar as contribui√ß√Ķes positivas dessas popula√ß√Ķes para a sociedade e incentivar estudantes a investigarem a pr√≥pria identidade

Voc√™ j√° ouviu falar sobre o perigo da hist√≥ria √ļnica? A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em uma apresenta√ß√£o em 2009, contou que, quando crian√ßa, adorava ler, mas sempre lia livros brit√Ęnicos e americanos. E nas hist√≥rias que escrevia na inf√Ęncia, todos os seus personagens eram brancos e de olhos azuis, brincavam na neve e comiam ma√ß√£s, mesmo que essas caracter√≠sticas n√£o fossem nem um pouco parecidas com as da sua realidade. Como ela n√£o se via nas hist√≥rias, n√£o se enxergava como uma personagem principal e nem a possibilidade de que meninas com cabelos crespos e pele da cor do chocolate tamb√©m pudessem existir na literatura.

A falta de representatividade √© um dos perigos quando temos uma hist√≥ria √ļnica, mas h√°, ainda, a preocupa√ß√£o com quem est√° contando essa hist√≥ria e que ideia pode estar perpetuando. ‚ÄúComece uma hist√≥ria com as flechas dos nativos americanos e n√£o com a chegada dos brit√Ęnicos e voc√™ tem uma hist√≥ria totalmente diferente. Comece uma hist√≥ria com o fracasso do Estado africano e n√£o com a cria√ß√£o colonial desse Estado e voc√™ tem uma hist√≥ria totalmente diferente‚ÄĚ, disse Chimamanda.

Podemos trazer essa reflex√£o para pensar como a hist√≥ria do nosso pa√≠s tem sido contada e reproduzida desde 1500, inclusive nas escolas, e quais os impactos que isso causa. Daniel Munduruku, que √© educador e escritor de literatura infanto-juvenil ind√≠gena, em entrevista ao Alana, nos contou que, quando come√ßou a dar aulas, percebeu que os conte√ļdos acabavam engessando a atua√ß√£o do professor e reproduzindo a hist√≥ria a partir de um √ļnico ponto de vista: o europeu.¬†

‚ÄúA hist√≥ria do Brasil era contada pelo ponto de vista do nosso colonizador e os ind√≠genas sempre ficavam em um papel secund√°rio, terci√°rio, l√° no final da fila, porque n√£o se tinha interesse. E a imagem que se fazia desse personagem ind√≠gena era totalmente desqualificada‚ÄĚ, apontou. Em fun√ß√£o disso, come√ßou a escrever hist√≥rias para apresentar √†s crian√ßas uma outra perspectiva. Hoje, Daniel j√° tem mais de 50 livros publicados com o objetivo de trazer mais visibilidade para essa tem√°tica e romper estere√≥tipos e preconceitos quanto aos povos ind√≠genas.

O escritor aponta que, mais do que escrever para crian√ßas ind√≠genas e elas se perceberem na literatura, sua ideia √© fazer com que as crian√ßas n√£o-ind√≠genas percebam o ind√≠gena que existe nelas e assim possam construir essa identidade. ‚ÄúEsse sentimento de pertencimento √© necess√°rio e importante para que a gente crie um pa√≠s mais tolerante e respeitoso e com isso fa√ßamos um caminho novo, um caminho de educar o olhar das pessoas, o sentimento, o pertencimento delas‚ÄĚ, explica Daniel.

Como aponta Chimamanda, a consequ√™ncia da hist√≥ria √ļnica √© exatamente o contr√°rio: roubar das pessoas sua dignidade, fazer o reconhecimento de nossa hist√≥ria compartilhada dif√≠cil e enfatizar como n√≥s somos diferentes em vez de semelhantes.¬†

Pensando a educação escolar como um importante instrumento para o desenvolvimento de cidadãos críticos e questionadores, esforços como o de Daniel são essenciais para conectar os pequenos com histórias plurais, contribuindo para uma educação antirracista e democrática. Mas, para romper essas narrativas que reproduzem o racismo estrutural, perpetuam o pontos de vista coloniais e promovem a naturalização de violências e desigualdades, é preciso uma institucionalização de iniciativas que levem a história e cultura desses povos para dentro das salas de aula e para a vida dos pequenos. 

Historicamente os movimentos sociais se levantaram para que as escolas regulares tivessem um curr√≠culo comprometido com a diversidade de povos, culturas e suas cosmovis√Ķes. Assim, em 2003, a Lei 10.639 foi aprovada, incluindo no curr√≠culo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da tem√°tica “Hist√≥ria e Cultura Afro-Brasileira”. A inclus√£o das quest√Ķes ind√≠genas demorou um pouco mais.

Daniel conta que, ap√≥s a promulga√ß√£o da nova Constitui√ß√£o Federal, em 1988, o Estado brasileiro aprovou um outro olhar sobre as popula√ß√Ķes ind√≠genas, dando a elas direitos exclusivos, como a uma educa√ß√£o escolar e tratamento de sa√ļde diferenciados e direito √†s suas terras, cabendo¬† ao Estado brasileiro demarc√°-las.¬†

A partir desses direitos, outras tantas pol√≠ticas p√ļblicas foram sendo desenvolvidas e foi pautada a necessidade de que o Brasil olhasse para os povos ind√≠genas sob uma nova perspectiva. ‚ÄúDa√≠ houve o implemento da Lei 11.645, de 2008, [complementando a Lei 10.639, de 2003] que veio estabelecer que todas as escolas devem colocar nos seus curr√≠culos a tem√°tica ind√≠gena, principalmente na hist√≥ria, arte e na literatura. Por√©m, a lei por si s√≥ n√£o resolve nada, ela precisa ser, de fato, implementada e, para isso, √© preciso formar professores com uma vis√£o diferenciada, comprar materiais e dar condi√ß√Ķes para os educadores atuarem‚ÄĚ, explica.

A partir dessas leis, a literatura passou a ser um componente essencial para a efetivação desses direitos e os editais que o Governo Federal fomentou também foram fundamentais para que as escolas pudessem receber acervos literários que ajudassem os professores a executarem bem esse trabalho.

Protagonismo estudantil por uma sociedade e educação antirracista

Ter contato com a hist√≥ria e a cultura desses povos tamb√©m √© importante porque, al√©m de gerar representatividade e novos imagin√°rios sobre as popula√ß√Ķes afro-brasileiras e ind√≠genas, evidencia suas contribui√ß√Ķes positivas para a nossa sociedade e resgata a mem√≥ria hist√≥rica, promovendo a constru√ß√£o da subjetividade de negros e ind√≠genas, e um novo olhar para o continente africano.¬†

Esse contato tamb√©m incentiva os estudantes a investigarem a pr√≥pria identidade com base em suas viv√™ncias e hist√≥rias. Dessa forma, eles criam, por meio do protagonismo juvenil, projetos para fortalecer a autoestima pr√≥pria e a dos colegas, e resolver quest√Ķes raciais que t√™m se apresentado como uma problem√°tica em suas comunidades.

Para Gabriel Salgado, coordenador do programa Criativos da Escola, do Instituto Alana, que encoraja estudantes a mudarem suas realidades reconhecendo-os como protagonistas de suas pr√≥prias hist√≥rias de mudan√ßa, a garantia do direito √† educa√ß√£o em suas v√°rias esferas e dimens√Ķes caminha lado a lado com a constru√ß√£o de uma educa√ß√£o antirracista e com a forma√ß√£o de estudantes comprometidos com a pr√°tica cidad√£ e a constru√ß√£o de uma sociedade cada vez melhor √†s suas popula√ß√Ķes.

‚ÄúNeste sentido, √© fundamental que alunos e alunas – independente de sua ra√ßa, g√™nero, etnia e condi√ß√£o de defici√™ncia, por exemplo – n√£o s√≥ tenham a possibilidade de participar ativamente, mas sejam convocados a se posicionarem de maneira cr√≠tica e criativa com o objetivo de efetivar na pr√°tica melhorias para os desafios estruturais que enfrentamos‚ÄĚ, aponta.

Em 2021, o Criativos da Escola lan√ßou a Liga Criativos da Escola, um panorama sobre como estudantes e professores est√£o transformando suas realidades. Dos 6 mil projetos recebidos pelo programa desde 2015, 31% buscam construir melhores rela√ß√Ķes interpessoais e promover o bem-estar. E, dentro deste grupo, 24% combatem preconceitos por meio da valoriza√ß√£o das diferen√ßas.

‚ÄúAlgumas de nossas principais conclus√Ķes a partir da pesquisa foram que: as crian√ßas e adolescentes se mobilizam ainda mais quando lidam com quest√Ķes vividas na pele; tem se tornado expressiva a atua√ß√£o de estudantes que se somam a movimentos identit√°rios (de g√™nero, sexualidade, ra√ßa, entre outros), buscando alternativas para enfrentar localmente problemas estruturais; estudantes t√™m investido em a√ß√Ķes que promovem o di√°logo e a empatia como estrat√©gia para combater preconceitos e construir rela√ß√Ķes mais respeitosas frente √†s diferen√ßas; e projetos realizados por estudantes n√£o se limitam a denunciar a discrimina√ß√£o e suas consequ√™ncias, mas buscam tamb√©m valorizar, por exemplo, o conhecimento e a riqueza da cultura afro-brasileira e dos povos origin√°rios e o papel da mulher na sociedade‚ÄĚ, explica Gabriel.

A origem dos projetos tamb√©m parte de diferentes lugares e experi√™ncias. Dentre eles, h√° os que surgem desde a constata√ß√£o da falta de representatividade das meninas negras na escola, como foi o caso do projeto criado pelo coletivo de meninas Naturalmente Cacheada, em Sumar√©, S√£o Paulo, que organizou a√ß√Ķes focadas na valoriza√ß√£o da autoestima das meninas negras; at√© a necessidade de conhecer e valorizar comunidades quilombolas, como a a√ß√£o de estudantes do projeto Por um olhar mais humanizado: P√©rola Negra!, em Caturama, na Bahia, em que um grupo de estudantes desenvolveu atividades em torno de visitas etnogr√°ficas a terreiros e comunidades quilombolas, apresenta√ß√Ķes culturais e palestras.

Tamb√©m h√° projetos como o Dicion√°rio Ind√≠gena Ilustrado, que surgiu da necessidade de resgate da l√≠ngua e da cultura ind√≠gena das comunidades Ofai√© e Guarani, na cidade de Brasil√Ęndia, no Mato Grosso do Sul; e projetos que surgiram da demanda por maior valoriza√ß√£o das mulheres e, principalmente, das mulheres negras, na ci√™ncia, como o projeto Minas na Ci√™ncia, de S√£o Miguel das Matas, da Bahia.

‚ÄúApoiar, valorizar e promover pr√°ticas como essas de protagonismo estudantil √© fundamental n√£o s√≥ para que todos os estudantes sejam considerados no processo de constru√ß√£o de conhecimento – especialmente os historicamente exclu√≠dos como negros, ind√≠genas, mulheres, pessoas com defici√™ncia e perif√©ricos -, mas principalmente para que possamos mobilizar e comprometer toda a sociedade na valoriza√ß√£o do conhecimento, da hist√≥ria e das culturas africana, afro-brasileira e ind√≠gena, al√©m de mobilizar e comprometer tamb√©m cada um √† luta contra o racismo‚ÄĚ, conclui.¬†

 

Conte√ļdo de apoio:

> Seleção de filmes sobre antirracismo e educação 

> No Chão da Escola: Educação Antirracista РDepoimento Prof. Francisco Celso

> No Chão da Escola: Educação Antirracista РDepoimento Prof.ª Solange Miranda 

> Grada Kilomba ‚Äď conversa sobre Mem√≥rias da Planta√ß√£o

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