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Manifesto pede que perspectiva do Desenvolvimento Integral permeie todos os pontos da Base Curricular Nacional, que está em processo de construção.

O Instituto Alana, ao lado de outras organizações da sociedade civil, assinou um manifesto que pede a inclusão do Desenvolvimento Integral de forma mais explícita e transversal na Base Curricular Nacional. O texto, produzido pelo Movimento pela Base Nacional Comum, tem o propósito de mobilizar e sensibilizar o Ministério da Educação sobre o tema, além de buscar um engajamento de outras organizações.

O documento preliminar da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) está aberto à consulta pública até dia 15 de Março e apresentará o conjunto de conhecimentos e habilidades essenciais que cada estudante brasileiro tem o direito de aprender durante a Educação Básica para se desenvolver como pessoa.

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A legislação brasileira vigente ressalta que a finalidade da educação é promover o pleno desenvolvimento do aluno (artigo 205 da Constituição Federal, artigo 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente e artigo 2 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), e que, portanto, deve contribuir em todas as dimensões, física, intelectual, social, emocional e simbólica, ao longo da trajetória escolar.

O Movimento pela Base Nacional Comum quer garantir que a BNCC contemple aprendizagens associadas a todas estas dimensões e que a educação brasileira seja orientada para o Desenvolvimento Integral. O manifesto defende ainda que esta perspectiva inspire o propósito, a concepção formativa, a abordagem das áreas do conhecimento, das etapas de ensino e dos objetivos de aprendizagem presente na BNCC.

Para saber mais acesse: http://movimentopelabase.org.br/

Foto: Free Images

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Ana Claudia Arruda Leite, coordenadora de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana, vê a escola como espaço de convivência e leitura crítica e criativa do mundo.

Com as mudanças provocadas pelos processos de globalização e de revolução tecnológica, principalmente após meados do século XX, a escola teve seu papel questionado. O modelo tradicional de ensino, com foco na disciplina e no conteúdo acadêmico, onde o professor é visto como único detentor do saber e os alunos como “folhas em branco”, não encontra mais espaço no cenário do século XXI. Marcado por problemas sociais, ambientais, econômicos e políticos complexos e dinâmicos, o mundo atual exige competências e habilidades diversas, que vão muito além do modelo tradicional de ensino, do vestibular e do português e da matemática.

Neste contexto, cabe à escola repensar seu papel e construir novos significados à sua atuação. É necessário revisitar as concepções de educação e compreende-la sob uma perspectiva mais ampla, considerando sua aproximação com outros campos, instituições e atores.

Para mergulhar fundo nestas discussões, escutamos Ana Claudia Arruda Leite, pedagoga e coordenadora de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana, uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que tem como missão “honrar a criança”. Para Ana Claudia, a escola deve se fortalecer como um espaço de convivência e de leitura crítica e criativa do mundo; capaz de possibilitar tanto a apropriação do patrimônio simbólico e material da humanidade, como a construção de vínculos e de significados para a vida, no âmbito individual e coletivo.

Confira abaixo a entrevista com a especialista.

[Site] – Hoje muitos defendem a escola em tempo integral, ela seria um modelo interessante e que atenderia as novas demandas do século XXI?

Ana Claudia Leite – Antes de tudo é fundamental distinguir educação integral de escola em tempo integral. A educação integral é uma concepção de educação e não um modelo. Ela foca no desenvolvimento pleno do ser humano, ou seja, nas suas múltiplas dimensões (intelectual, corporal, ético, estético e político), por isso integral, do latim integrālis (inteiro, total). Além disso, nessa abordagem a escola é vista como um dos espaços educativos e não o único, e é pensada a partir do diálogo com seu território, onde os diferentes sujeitos, espaços e tempos são reconhecidos no processo de ensino-aprendizagem.

A escola em tempo integral tem relação com esta discussão, no que tange à expansão do tempo e até de possibilidades formativas, mas dependendo de como ela for proposta pode não significar uma educação integral no sentido pleno, visto que a institucionalização traz consequências complexas que podem impactar negativamente a educação e a saúde, psiquica e física, dos bebês, crianças, adolescentes, jovens e professores. Vale lembrar que, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a profissão docente é hoje considerada como uma das mais estressantes, além de ser a segunda do mundo a portar doenças de caráter ocupacional.

Precisamos olhar para essas condições atuais da escola e buscar caminhos efetivos e viáveis de transformar a escola num real ambiente educativo, saudável, inclusivo e inspirador para todos. Isto passa por repensar muitas dimensões e não apenas a extensão do tempo que a criança ficará dentro da escola. É preciso olhar o currículo, a arquitetura, a formação e condições de trabalho dos professores, a valorização da criança como sujeito, a inclusão, bem como a integração entre educação, arte, cultura, esporte, saúde.

[Site] – Sob o olhar da educação integral, educa-se então em diversos lugares, diversos tempos e ao longo de toda a vida. A escola acolhe essa visão de educação?

AC – As escolas realizam práticas diversas de acordo com suas equipes e o modo como trabalham, mas a educação integral parte de um pressuposto que está na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adoslescente (ECA) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de que a educação no Brasil é um direito de todos e uma responsabilidade da família, do Estado e da sociedade no geral; não restrita, portanto, aos muros da escola. Assim, a educação que se faz dentro da escola deve olhar para o desenvolvimento integral da criança, considerando aspectos simbólicos e materiais, que juntos compõe o ambiente educativo e a subjetividade de cada ser humano.

Do ponto de vista teórico e legislativo, já temos respaldo para pensar a educação nessa perspectiva, como também para pensar a escola na relação com seu entorno. O sujeito se faz como tal na sua relação com o outro, portanto, o diálogo com a diversidade está, inevitavelmente, implícito à prática educativa. A educação integral traz luz para isso e enxerga os diferentes contextos em que os alunos estão inseridos como potências para a aprendizagem. Iniciativas como o Centro de Referências de Educação Integral, do qual o Alana participa junto com outras organizações sociais, tem um papel fundamental nesta discussão.

[Site] – O que estamos fazendo com as crianças dentro das escolas?

AC – Vivemos um momento paradoxal na educação brasileira. Presenciamos uma melhoria na garantia de acesso à escola (hoje temos praticamente universalizado o acesso ao ensino fundamental e a educação infantil começa a entrar nesse processo), contudo, o desafio da qualidade e da transformação ainda se faz presente. Algumas escolas já estão buscando alternativas a esse desafio e repensando seus projetos político-pedagógicos, a fim de colocar em pauta discussões importantes, como a reformulação do currículo e do sistema de avaliação, além de trazer à luz temas como inclusão e diversidade.

Neste movimento de repensar o papel da escola, estamos corealizando com a Ashoka o Escola Transformadoras, um movimento global que busca conectar escolas que estão criando novos paradigmas na educação, rumo a uma aprendizagem verdadeiramente transformadora. Temos descoberto muitas escolas incríveis no Brasil e no mundo, que possibilitam a formação de sujeitos criativos, empáticos, críticos e engajados. Acreditamos que as experiências destas escolas precisam ser reconhecidas, sistematizadas e divulgadas, pois dão importantes pistas para avançarmos nesta discussão sobre qual escola queremos no século XXI.

[Site] – O que seria – dentro do contexto brasileiro – uma educação transformadora?

AC – Dentro do contexto brasileiro existe algo muito importante a ser feito: olhar para a própria história. Olhamos muito pra fora e nos esquecemos de identificar o que aconteceu e o que acontece de inovador em termos de educação no Brasil. Temos experiências incríveis por aqui. É preciso recuperar os autores e as experiências pedagógicas significativas e comunicar estas boas referências. O desafio é como sistematizar e contar esta história de uma forma consistente, inspiradora e de fácil acesso para que consigamos construir novas narrativas, mudando a mentalidade e expectativa do que seja uma boa escola. E isso não é um assunto exclusivo de pedagogos e profissionais da educação, ele é de todos na medida em que a educação é um direito e um dever da família, do Estado , da escola e da sociedade.

A mudança de mentalidade é fundamental porque apesar de existirem exemplos inspiradores, de vanguarda, o que se tornou universal foi um modelo de educação enraizado ao conceito de escola do século XIX. Assim, a expectativa que a família, a mídia e sociedade têm é de uma escola “forte,” “séria”, que prepara para o vestibular. Ou seja, nada mais do que a escola tradicional. Hoje, espera-se que a escola no Brasil garanta o mínimo: ensino da matemática e alfabetização, como se isso fosse suficiente. É preciso mudar essa cultura e estabelecer uma expectativa de aprendizagem maior, que envolva outras linguagens expressivas, competências e habilidades.

Vivemos então um paradigma: do ponto de vista legal existe a possibilidade de a escola construir um projeto pedagógico autônomo e focado no desenvolvimento integral; em contrapartida, as pessoas que estão nas escolas e fora dela não sabem disso e esperam da escola a continuidade do modelo tradicional, mesmo que já seja um consenso de que se trata de um modelo falido, que não serve nem mais para a reprodução do sistema, que dirá para uma transformação social.

Atravessar as barreiras simbólicas da escola seria uma grande transformação, mas também um enorme desafio.

[Site] – Quais são os maiores desafios do campo da educação?

AC – Há muitos desafios no campo da educação, que abarcam desde questões relacionadas ao paradoxo quantidade/qualidade, até a forma de contratação de professores e arquitetura da escola. Precisamos reconhecer o avanço nas políticas públicas para universalizar o acesso à educação, contudo o desafio é fazer isso sem perder a qualidade e sem institucionalizar o processo educativo. A escola não é prédio, mas um ambiente de aprendizagem, que possibilita a convivência, a construção de vínculo, de significados e de sentidos.

A escola deve ser um espaço autoral, e tudo o que é autoral exige um tempo maior de entrega e envolvimento. Não apenas para o aluno, mas também para o professor. Como construir um projeto político-pedagógico sem conhecer o entorno, as diferentes culturas que estão dentro da escola ou mesmo os próprios colegas de profissão?

Hoje é comum o professor assumir mais de uma jornada de trabalho, o que interfere na construção desse espaço autoral, individual e grupal. Ao dar aulas em diferentes escolas o professor não se sente pertencente a nenhuma, e isso é um desafio para a qualidade da educação, pois impacta na possibilidade real de se construir projetos pedagógicos coletivos. A qualidade também está ligada a possibilidade de se ter uma equipe forte, que elabore um trabalho consistente, coeso e continuo, capaz de estabelecer vínculos com as crianças, suas famílias e com a comunidade.

Agora, imagine uma escola que atende até 3 mil crianças, com mais de 200 professores e muitos sem dedicação exclusiva, como ser um espaço autoral e de convivência, sem uma equipe forte? Como ser uma comunidade de aprendizagem se não temos tempo e espaço adequado para nos reconhecermos e nos conhecermos como coletivo?

Acredito que precisamos sim transpor os muros da escola no que tange à espaço e tempo, concretos e simbólicos, mas tão importante quanto isso é fortalecer a escola como uma comunidade de aprendizagem, construída por sujeitos, pois ela é, antes de tudo, espaço de relação humana. Sem afeto, vinculo e socialização, a educação se desumaniza.

Foto: Via Flickr SanShoot

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No último dia 16 de setembro aconteceu em São Paulo o lançamento da iniciativa Escolas Transformadoras. O programa da Ashoka, que já ocorre em diversas partes do mundo, chega ao Brasil correalizado pelo Instituto Alana e busca apoiar e conectar escolas de todo o país que estão criando novos caminhos rumo a uma educação verdadeiramente transformadora.

O evento de lançamento contou com a participação das 10 primeiras escolas da rede, que foram reconhecidas como ‘transformadoras’ por trabalharem, em suas práticas pedagógicas, habilidades como empatia, criatividade, trabalho em equipe e protagonismo social. Representantes de cada escola compartilharam com os presentes experiências de seu dia a dia, e contaram como trabalham para encontrar em cada problema uma oportunidade de mudança. Para conhecer as 10 primeiras Escolas Transformadoras do Brasil e suas práticas, clique aqui.

Apesar de suas diferentes realidades (há escolas públicas, privadas, comunitárias e de diversas regiões brasileiras, como Minas Gerais, Ceará e Rio Grande do Sul), todas têm um ponto em comum: elas se preocupam em formar sujeitos ativos, capazes de atuar no mundo de maneira criativa e sensível e oferecem aos seus educandos uma formação que valoriza o desenvolvimento de habilidades e competências transformadoras.

Além do bate-papo com as escolas, o lançamento contou com a presença da empreendedora social Kiran Bir Sethi, fundadora da Escola Riverside, na India, e da metodologia Design For Change, que parte do princípio que toda criança tem potencial para transformar o mundo e trabalha, de maneira muito forte, a ideia do protagonismo social. No Brasil, o Design for Change é realizado pelo Alana, com o Projeto Criativos da Escola. Em sua fala, Kiran defendeu a necessidade de dar, a toda criança, a oportunidade de construir uma narrativa para a própria vida e ser capaz de se reconhecer no mundo: “toda criança pode transformar o mundo, precisamos ouvi-las ao invés de dizer, a todo o momento, o que elas devem fazer”.

AnaMaria Schindler, co-presidente da Ashoka e Ana Lucia Villela, presidente do Instituto Alana, afirmaram a alegria em realizar o Escolas Transformadoras como uma iniciativa conjunta e reconheceram que os valores das organizações se cruzam: “a Ashoka acredita que todos podem ser agentes de transformação, e o Alana que toda a criança deve acessar sua potencia máxima;  as escolas transformadoras parecem o melhor lugar para que isso aconteça”, disse Ana Lucia.

A iniciativa está apenas começando no Brasil. Se você conhece ou faz parte de uma Escola que está construindo um novo paradigma para a Educação, fale com a gente!

Veja as fotos do evento de lançamento:

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Foto capa: Rodolfo Goud